pelo avesso

campinas, macc, museu de arte contemporânea, 2018

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O processo criativo e o trabalho no diálogo com o outro

Ver de perto
Ver de longe
Aproximar-se
Distanciar-se
Deslocamento
Dimensão
O corpo
A narrativa

 
 
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A realidade não é mais exatamente a mesma: ela é duplicada, reforçada pela ficção.
— Anne Cauquelin

O conjunto de imagens/desenhos construídos a partir de uma visão real ou irreal cria um novo universo de relações que nada tem a ver com sua real origem. Os corvos deixam de habitar seu local natural para serem deslocados para dentro de um espaço criando novas relações de espaço/tempo, em alguns momentos congelando o tempo em imagens singulares e em outros eternizando a imagem, quando a amplitude de sua apresentação tira o espectador de sua relação normal com a dimensão do animal e da pessoa. Cria-se então uma narrativa onde o espectador passa a ser um personagem da própria história. A proximidade ou o distanciamento do espectador em relação á obra faz dele personagem principal ou apenas coadjuvante. Um diálogo se estabelece com “O corvo” de Edgar Allan Poe2, que conta a história de um intruso que adentra o quarto e estabelece uma relação melancólica com o espaço e com o amante. Seja através do silêncio que adentra a casa com sua própria presença seja através da imponência de suas palavras quando responde: “nunca mais”. E todas as relações criadas entre o espaço, o corvo, o quarto e a amante. Relações eternizadas para além da presença do corvo.

Os desenhos na parede me fazem pensar em cada uma das superfícies como páginas abertas onde imagens, desenhos ou palavras se intercalam ou se completam trazendo uma narrativa não linear que cria relação das paredes entre si, da imagem com a superfície, do espaço com o espectador, estabelecendo múltiplas relações entre espaço, desenho e espectador. Relações estas que estão presentes sempre que o espaço é parte do trabalho.

A história surge a partir de um sujeito, com suas experiências e pontos de vista. No momento em que ela acontece no mundo, é lida por outras pessoas e novas histórias surgem da leitura, surge assim um diálogo entre a imagem e o espectador, entre o som e a imagem e entre o espectador e ele mesmo a partir das suas próprias relações. A imagem cria esse mesmo mecanismo de leitura a partir do espectador. A busca de uma sensação, ou de uma linha de condução que o leve a viver uma experiência visual ou não.  Todas as relações podem ser criadas a partir da imagem, da palavra e do espaço. Eu posso ser a pessoa sentada que carrega o corvo sobre a cabeça. Você também pode ser. A casa pode ser a sua, a minha ou a nossa casa. O lugar de onde saímos e voltamos o tempo todo, seja de maneira física ou figurada vinculada ao comportamento emocional de sair, e voltar de dentro de si mesmo para se relacionar com o mundo, e depois voltar para estar com você mesmo de novo, e com mundo, e com você. E assim sucessivamente. A relação entre o espectador e a obra, estudada por Jacques Ranciére a qual o espectador deixa de ser apenas um mero observador do desconhecido, considera o espectador como um ser desfavorecido no contato com o espetáculo e busca outro lugar para esse espectador.

“Mas a condição de espectador é uma coisa ruim. Ser um espectador significa olhar para um espetáculo. E olhar é uma coisa ruim, por duas razões. Primeiro olhar é considerado o oposto de conhecer. Olhar significa estar diante de uma aparência sem conhecer as condições que produziram aquela aparência ou realidade que está por trás dela. Segundo olhar é considerado o oposto de agir. Aquele que olha para o espetáculo permanece imóvel na sua cadeira, desprovido de qualquer poder de intervenção. Ser um espectador significa ser passivo. O espectador está separado da capacidade de conhecer assim como ele está separado da possibilidade de agir4.”

E as relações entre o desenho, o livro, as cenas do cotidiano e as narrativas expandidas para o espaço, distanciam e aproximam o espectador das imagens. Eu me aproprio da minha própria história como eu me aproprio da história contada por outro e faço dela a minha história. Eu me distancio da minha própria história como eu me distancio da história do outro e faço dela a história alheia.  

A arte e a vida se confundem na literatura, no cinema, na imagem, nas palavras faladas, na música. O espaço ampliado se ampliou tanto que invadiu a vida, alargou o limite entre o trabalho artístico e o artista, entre o espectador e o trabalho de arte, entre a minha história e a sua história, ficou tudo uma coisa só. Nem minha, nem sua, do mundo.

Encontro uma ressonância no texto de Jacques Ranciére, escrito sobre a exposição da artista Esther Shalev-Gerz, “O aspecto humano dos objetos”, realizada em MenschenDinge, Berlim3. Os campos de concentração, o holocausto, o tempo, a vida e a morte. A memória que eu trago comigo é sobre a vida. É sobre o que restou entre aquilo que existiu e o que eu vivi. O cenário está entre uma coisa e outra. É uma tentativa de mentir sobre a verdade e criar outra verdade. Eu me distancio da minha verdade, ou me aproximo, não sei bem ao certo, para criar as narrativas que contam suas próprias verdades a partir do outro. Com suas próprias experiências vividas. Eu não quero falar da morte, mas da vida, do que restou das apropriações que eu fiz para sobreviver. E essa relação entre o lugar, o tempo, a memória constrói as narrativas. Não me interessa contar uma história linear, me interessa criar elementos que façam cada um criar a própria história. Visitar suas memórias ou não. Apenas ter uma experiência ou identificar-se com as cenas e ser parte do enredo. Como diz Ranciére2: “trata-se de escavar a própria relação entre o semelhante e o diferente, de mostrar como o outro é parecido, portador das mesmas capacidades de falar e ouvir, mas também inversamente, como o outro é em si mesmo o outro, ele próprio preso na obrigação da distancia e do intervalo”.

De qualquer maneira tudo se transforma o tempo todo, as pessoas mudam de lugar, as coisas mudam de função, impermanência. E entre todos esses deslocamentos penso que tudo aquilo que é trazido pelo trabalho hoje é apenas um processo e daqui a alguns meses ou anos outras coisas poderão ser ditas e pensadas. Enquanto o espectador muda de lugar, o trabalho muda de função. O trabalho é processo, e processo é movimento. Romper com as barreiras nos permite pensar o lugar, o espectador e o trabalho como outra coisa, e transitar nesses espaços, experimentando os trabalhos e refletindo de maneira diversa a cada vez.

Valéria Menezes Scornaienchi                                                                                                                                           
Primavera, 2017.

1.Cauquelin, Anne. “A invenção da paisagem”2007, Ed. Martins Fontes.
2. Poe, Edgar Allan. “O corvo”
3. Ranciére, Jacques. “Trabalho sobre a imagem”, tradução Cláudia Muller Sachs; Urdimento, outubro 2010, n015.      
4.  Ranciére, Jacques. “O espectador emancipado”, tradução Daniela Ávila; Urdimento, outubro 2010, n015.     

 

leia texto de sylvia furegatti, sobre este trabalho