as águas que me habitam
igatu, chapada diamantina, ba, 2024
Tomada pelo Pará. Desde quando fui a primeira vez em 2023 o meu corpo não é mais o mesmo. Fui tomada pelas águas dos rios. Tomada eu digo, incorporada. Correm nas minhas veias as águas da Amazônia. Eu sempre quis ir a Amazônia, mas era medrosa demais para enfrentar uma floresta. Só me dei conta disso agora. Sempre fui a lugares de natureza, paisagens deslumbrantes, parques, reservas, mas definitivamente isso não é a floresta. Desde quando fui a chapada diamantina em 2022, onde o corpo se confunde com as pedras, águas âmbar e gestos de outros tempos, percebi que a ideia que eu tinha de natureza talvez fosse uma pouco deturpada. Acho que isso está relacionado a ficar sozinha com as águas, pedras, vento, montanhas, mata. Em todas as outras situações eu sempre estava com alguém, e na chapada antes de chegar em Igatu, em lençóis, eu fiz algumas trilhas curtas sozinha. Me vi imersa em um outro tempo e com a certeza de que em tempos suspensos tudo é tomado pela subjetividade do corpo, pelo encontro dos sentidos, pelo sensorial. Nenhuma palavra te atravessa porque não cabe no espaço que se abre entre o corpo e a paisagem. É um silêncio absoluto. Silêncio de alma que se conecta com si mesmo e com a essência da vida. Quando fui a Amazônia em 2023, já tinha o corpo um pouco mais vivo, desperto, mas não tão sensível... ainda acometido de um medo. Talvez a cosmofobia que o antonio nego bispo tanto nos fala. Um medo de se aproximar do desconhecido, do selvagem, do que se dá em outros tempos tão distantes da nossa existência que nos faz temer. Para conhecer a natureza precisa se desconhecer, acessar tempos da nossa inexistência, porque muitos entes e seres estão no mundo a muito mais tempo que nós. É preciso nos encher de coragem e deixar o corpo ser tomado pelo que ele não sabe o que é. Decidi fazer isso sem tentar reconhecer as coisas pelo ponto de vista humano, mas me achegar pelo ponto de vista mais que humano, dos seres viventes, dos encantados, dos sublimes, dos mais diversos desconhecidos reinos de existência mais que humana. Sem rótulos, sem tentar explicar nada, sem tentar dizer que planta é, sem criar expectativa. Só presença. Tomada pelo Pará. Desde quando fui a primeira vez em 2023 o meu corpo não é mais o mesmo. Fui tomada pelas águas dos rios. Tomada eu digo, incorporada. Correm nas minhas veias as águas da Amazônia. Eu sempre quis ir a Amazônia, mas era medrosa demais para enfrentar uma floresta. Só me dei conta disso agora. Sempre fui a lugares de natureza, paisagens deslumbrantes, parques, reservas, mas definitivamente isso não é a floresta. Desde quando fui a chapada diamantina em 2022, onde o corpo se confunde com as pedras, águas âmbar e gestos de outros tempos, percebi que a ideia que eu tinha de natureza talvez fosse uma pouco deturpada. Acho que isso está relacionado a ficar sozinha com as águas, pedras, vento, montanhas, mata. Em todas as outras situações eu sempre estava com alguém, e na chapada antes de chegar em Igatu, em lençóis, eu fiz algumas trilhas curtas sozinha. Me vi imersa em um outro tempo e com a certeza de que em tempos suspensos tudo é tomado pela subjetividade do corpo, pelo encontro dos sentidos, pelo sensorial. Nenhuma palavra te atravessa porque não cabe no espaço que se abre entre o corpo e a paisagem. É um silêncio absoluto. Silêncio de alma que se conecta com si mesmo e com a essência da vida. Quando fui a Amazônia em 2023, já tinha o corpo um pouco mais vivo, desperto, mas não tão sensível... ainda acometido de um medo. Talvez a cosmofobia que o antônio nego bispo tanto nos fala. Um medo de se aproximar do desconhecido, do selvagem, do que se dá em outros tempos tão distantes da nossa existência que nos faz temer. Para conhecer a natureza precisa se desconhecer, acessar tempos da nossa inexistência, porque muitos entes e seres estão no mundo a muito mais tempo que nós. É preciso nos encher de coragem e deixar o corpo ser tomado pelo que ele não sabe o que é. Decidi fazer isso sem tentar reconhecer as coisas pelo ponto de vista humano, mas me achegar pelo ponto de vista mais que humano, dos seres viventes, dos encantados, dos sublimes, dos mais diversos desconhecidos reinos de existência mais que humana. Sem rótulos, sem tentar explicar nada, sem tentar dizer que planta é, sem criar expectativa. Só presença.
rio amazonas, pa, 2025.
Foi assim que fui tomada pelos rios. Um corpo vulnerável que aprendeu a entrar no rio pedindo licença e ficando ali a espera do que o rio e o corpo poderiam juntos. Um estar juntos que dava ao corpo e ao rio o tempo necessário para que um se reconhecesse no outro. Passei a sentir a água, o fluxo, o cheiro, o tempo... passei a ouvir lhe os sons que surgiam entre a água e o corpo, entre o corpo, a água e o vento, entre o gestos. Em um momento mágico me dei conta que nascia ali um corporio que sabia o que era ser rio porque não queria ser um humano no rio, mas experimentar o rio no tempo do rio e do corpo, mover com o rio, respirar com o rio, ser o próprio rio. Quando não há mais eu e nem o rio, quando choro é o rio que desagua de mim, quando urino é o rio que sai de mim, quando os fluxos correm nas veias são os rios que agora são parte de mim. Entendi nesse momento porque sair do Pará me faz chorar, porque me afastar das águas me transborda. Porque sei que as águas são mais intensas juntas, fluem mais juntas e me temperam de nuances e fluxos de outras vidas contidas no rio que também agora sonham em mim. Quando um rio de enche, me faz repleta, quando esvazia me faz dispersa. Fotografo rios, mares, águas, inscrevo em mim suas imagens, seus gestos águas e seus encontros com peixes, pedras, com o horizonte, com o mar, com as matas e mangues. Meu corpo todo inscrito de encontros com as águas. Me faz mover com elas só de lembrar. Fico pensando quando morre alguém, as memorias guardam a pessoa para sempre, quando deixo um rio levo suas memorias em mim para ter certeza de que ele nunca vai morrer dentro. As águas do marajó, me tomaram de surpresa. No caminho de barco entre Belém e Marajó, chorei com elas. Ao ver as águas tocando as janelas do barco, as lágrimas pulavam de forma incontrolável dos meus olhos. Impossível resistir e não havia por que resistir. Os rios choram em mim, cada vez que um rio desaparece é uma parte de mim que de retrai, é um desencontro que se abre no meu corpo.
joanes, ilha de marajó, pa, 2024
Nas margens do mar báltico, calmo, que se deleitava com as pedras e parecia inerte, me acalmei, encontrei muitos silêncios, silêncios desconhecidos, silêncios em que me reconheci em outros tempos. O mar mais silencioso que já conheci acalmou as águas de dentro. Me fez sentir um estado de suspensão, sereno, quase invisível. No mar da angola me vi invertida. Olhava de frente para o Brasil, enquanto era olhada pelo meu lugar de origem. Me lembrei do trabalho do Alfredo Jaar, enquanto o sol brilhava nas águas moventes. Me senti desorientada, me dei conta que o Brasil era a África e a África o Brasil. Me dei conta de todos os corpos que sou e de todos os corpos que somos. A ancestralidade. Na praia de Lejo, vi uma montanha que me parecia tão antiga que me transportou no tempo. Era banhada por águas verdes, delicadas e agitadas ao mesmo tempo. Me demorei com aquelas águas, para que pudesse me tornar elas também. Fecho os olhos e sou de novo aquela paisagem, e as águas verdes, e o tempo visivelmente impresso naquela montanha porque trouxe em mim um tempo remoto. Nas águas do pantanal, eu sou criança, brinco e nado com as águas do rio paraná. A beira do rio era lugar de diversão, e brincar com os rios era agitar-lhes as águas e sentir o corpo vivo e intenso. Tempos da criançario que nunca desapareceu, ela sempre volta quando o corpo move em gestos de brincar. Nas praias de Joanes o riomar era intenso. As ondas não davam trégua, aguas doces salgadas, o corporiomar agora era movido pelos gestos de ir e vir, pelos ventos intensos, pela falta de peso do corpo, pelos agitados encontros da pele com a água que me lembravam de quão resistente pode ser uma pele. De quão surpreendente pode ser um gesto riomar que se confunde com um corpo acordado por gestos aquosos. De bubuia no rio o corporio apoiado em um flutuador encontra o tempo, o relaxamento e com os ouvidos imersos é rio dentro, se dá conta de que entre um e outro não existe nada, só o encontro de dois corpos de diferentes dimensões que se somam em um gesto comum para chegar na praia. Com os olhos abertos sou o encontro das copas das árvores e dos seres viventes, com os olhos fechados sou as águas vestidas em um corpo sem contorno. Em um determinado momento me dou conta que todas as águas são uma só. Um corpo único de águas que contorna a terra, me vejo com elas em contornos sensíveis, levitando e viajando por entre outras terras, carregada de outros sonhos, inexplicáveis porque desconhecidos. Sigo tomada pelas águas que sou do Pará, que revivem em mim todas as águas passadas que agora são o gesto fluxo de um corporiomar.