os herbários

acervo do canadian museum of nature, ottawa, ca

os herbários sempre me instigaram. as práticas de conservação, os museus de histórias natural, eu percebia uma aproximação nas práticas que eu adotava no ateliê. Durante o processo de construção do livro ‘ tudo se refaz’, por causa da quantidade de imagens geradas no processo de investigação das plantas, nós (a Fabiana Bruno e eu) resolvemos pensar uma forma de apresentar essas imagens junto com o livro. eu gosto muito de objetos híbridos, não binários, que desobedecem as normas mesmo que estas sejam silenciosas. assim nasceu o herbário de histórias (Herbário de Histórias), uma plataforma virtual que contem um recorte de 800 imagens do processo e alguns textos em áudios, que foram escritos durante o período de investigação das plantas ou que surgiram como memórias de outros tempos em que as plantas me atravessaram na infância. o herbário de histórias é uma tentativa de aproximar as pessoas dos meus processos de conexão com as plantas.

eu tenho especial interesse por museus de história natural, sempre os visito quando tenho oportunidade, e observo a forma como organizam os seres que ali estão na relação com a arquitetura, os dispositivos de apresentação, instalações, acho tudo muito bonito, e me inspiro em algumas formas para pensar o meu próprio ateliê.

No final de 2022 início de 2023 passei um mês em Ottawa no Canadá realizando pesquisas na paisagens e no acervo do Canadian Museum of nature. Fui ao acervo de artes visuais, arquivos da biblioteca do museu e ao departamento de botânica acompanhada das responsáveis Chantal Dussalt e Jennifer Doubt, respectivamente. Nos acervos, para além dos seres e objetos que me interessam pesquisar gosto de observar como os arquivos são organizados, mantidos, saber sobre as doações feitas a biblioteca, como acontecem no caso de desenhos, pinturas, fotografias e livros antigos.

Em busca do que eu não sabia exatamente o que era entrei em contato com Chantal e lhe pedi permissão para visitar o acervo da biblioteca. Ela me mostrou muitas coisas em salas diferentes e em determinado momento me disse, ‘o que tiver te interessado você pode se aprofundar’. Alguns senhores voluntários estavam digitalizando os desenhos do professor de botânica Tom Reaume feitos para o livro “plantas selvagens da américa do norte”, que foi todo doado ao acervo da biblioteca. Me demorei ali olhando todas as etapas dos desenhos e depois a publicação impecável. As anotações nos papéis que se apresentam depois na publicação como sutilezas eram de uma riqueza enorme. Ele era um apaixonado por corvos, assim como eu, e com isso, colocou alguns desenhos de corvos ao longo do livro. Pequenos desenhos dos pássaros voando, que estavam nos arquivos como desenhos de natureza pessoal e afetiva.

Cheguei na biblioteca, era a segunda visita, então já com algumas coisas em mente. Me interessei especificamente pelas ilustrações do Tom Reaume, um biólogo aposentado, apaixonado por corvos, que já fez milhões de ilustrações incríveis para um livro chamado 'wild plants of North America', de sua própria autoria. A primeira pasta que eu peguei tinha um desenho de um crânio de um corvo. Eu procurando as plantas e me deparo com o corvo, confesso que foi bem estranho e entendi como um bom acaso. Comecei a folhear as pastas e olhar as etapas dos desenhos, nas páginas quadriculadas, depois em uma sulfite e só depois com nanquim na página final. As inscrições do arquivo contavam o que é e qual página do livro estava, além de escritos afetivos. Cada um dos desenhos me inspira a criar outros, como pequenas coleções de seres não existentes. O devir das plantas em busca dos seres encantados que vivem entre as páginas dos livros e as folhas dos arquivos. Os desenhos e as fotografias floresceram em imagens híbridas contendo imagens dos livros e arquivos do museu, além dos desenhos feitos a partir dessa experiência e as fotografias feitas da paisagem de Ottawa no inverno. As ruas cheias de neve. As árvores peladas carregam uma camada de neve nos seus ramos criando um desenho branco que contorna a árvore ou cria uns botões de flor sobre os caules. É possível ver o desenho das copas das árvores, a cor dos caules e o tempo compondo a paisagem.

um dos livros de uma série de livros doados para o museu. não me recordo as informações corretas de autoria.

Fiz duas visitas ao acervo da biblioteca do museu e uma ao departamento de botânica. Conversei longamente com Jennifer para entender os processos, visitei as salas nas quais cada processo era realizado e por fim as gavetas e armários. Eram tantas que me perdi nelas como uma criança que descobre algo novo, não sabe o que é e não quer sair dali por nem um minuto. Olhei com atenção e cada envelope de papel aberto com toda delicadeza e depois na sala das algas o processo de colocá-las no papel e as formas que elas tomam quando descansam em fundo branco. Os armários todos com rodinhas e muitas gavetas estreitas se moviam com um certo esforço mas de forma muito funcional. Teria passado o dia ali com aquelas plantas, algas, e surpresas que surgiam de cada um daqueles envelopes.

Na sala das algas, cada gaveta trazia muitas delas coladas em um papel por uma técnica em que a alga flutuava em um recipiente líquido e um papel era colocado sob ela e a trazia para a superfície, ficando assim colada no papel toda esticada. lindo! me demorei ali, porque sempre me demoro nos lugares que me trazem afetos.

Fotografei alguns livros e peças do acervo de botânica. Como resolvi usar as imagens no trabalho a vida sensível pedi autorização ao museu para utilizar as imagens, que me foi concedida mediante citar o museu nas exposições e publicações as quais as imagens aparecem.

a exposição ‘vida sensível’ abriu no MuNa - museu universitário de arte, em fevereiro de 2025, e por um acaso, ou talvez destino, conheci pessoalmente a professora Lúcia Estevinho, já éramos amigas virtuais, mas não nos conhecíamos pessoalmente. Passei dias muito agradáveis com a Lucia, que é bióloga. fui visitar o campus da biologia na ufu, e lá eu fiz a segunda visita a um herbário. fomos recebidas pelas pessoas com muito carinho, e pouco a pouco adentrando aos arquivos, plantas em pastas, catalogadas. gosto de observar a forma de organização e catalogação desses lugares. me interessei pela família do urucum, pelas sempre vivas, que pude ver em vários lugares na chapada diamantina, onde há um parque de preservação das sempre vivas que fica entre Igatu e mucugê.

acervo de sementes amazônicas do museu paraense emílio goeldi

em belém, em 2024 também visitei o museu paraense emílio goeldi, o segundo museu de história natural do brasil, que tinha umas peças bem interessantes, especialmente sementes da amazônia, e algumas folhas gigantes como eu nunca havia visto antes.

é interessante como os processos sempre me atraem sejam aqueles que nos aproximam da ciência sejam aqueles que surgem de fazeres tradicionais de povos originários ou comunidades ribeirinhas.

o fato é que me aproximar desses herbários me faz pensar na forma como a ciência e a arte se conectam, e quando olho meu ateliê me dou conta que sou um pouco pesquisadora, mas com critérios mais abertos, sem necessidade de tantas classificações, e certamente em busca de cocriar com os seres mais que humanos e não os estudar. conviver com eles é também me aproximar de forma que surgem textos, desenhos, imagens que compõem um arquivo do qual eu lanço mão para pensar os projetos, trabalhos e exposições.

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