coleta de céu
amanhecer no rio arapiuns, amazônia.
O céu é pra mim uma mistura de acalento e espaçosidade. Ao mesmo tempo que me abraça me expande. Eu observo o céu desde criança, tentando enxergar formas nas nuvens, aliás faço isso até hoje.
Sempre me intrigou o horizonte, uma linha que separa a terra e o céu que hora é silhueta de cidade e de paisagem, ora é uma linha tão sutil que faz desaparecer essa divisão. Fiquei especialmente tocada com isso em Angola onde em alguns lugares parece que o céu é uma insurgência da terra ou ao contrário, e em outros, parece que há uma clareza tão grande que a paisagem parece ter saído de uma imagem de uma ilustração de um livro da natureza.
Quando minha filha era pequena olhávamos a lua com muita frequência, tentando ver, inventar, fabular o que tinha lá. Desenhos, seres, histórias. Criamos um afeto com a lua.
Também me interesso por observar as nuvens na relação com o céu, as vezes parecem que flutuam sobre um fundo distante. Outras parecem que são coladas nele. Tem vezes que parecem mágica fios que deslizam e criam desenhos de linhas, uma infinidade de gestos nuvens atravessam o céu todos os dias. As vezes elas surgem no horizonte como uma camada que se confunde com ele. Tem várias cores. E densidades.
Esses dias de inverno tenho levantado para ver o céu logo cedo. Saio na sacada do quarto para contemplar o amanhecer.
Tenho estado em estado de felicidade. Não sei bem explicar, parece que acordar e me presentear com esse momento tem me feito lembrar do quão lindo é viver. De quanto amor e quanta poesia cabe em uma vida. Alguma coisa aconteceu dentro de mim e está me lembrando de quem eu sou. Um brotamento de vida. Uma vida sensível. E o quanto é urgente nos sensibilizar, cantar, escrever, desenhar, recitar poemas... fico pensando o que seria o mundo se as pessoas expressassem mais seu lado sensível, amoroso e afetivo. Acho que contemplar o céu me lembra disso.
Eu sempre ouço música e me sensibilizo com as letras. Alegra meu coração porque crio imagens afetivas a partir das palavras poemas cantadas nas músicas. A minha preferida é 'viver é afinar um instrumento. de dentro pra fora. de fora pra dentro', que é de uma música do Walter Franco interpretada por Leila Pinheiro. E também diz 'tudo é uma questão de manter, a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo'... olha que coisa linda!
Digo isso porque o céu me ajuda a afinar esse instrumento dentro de mim e a manter o coração tranquilo. Acho que o contato com o pluriverso (natureza) faz isso.
amanhecer visto na sacada da minha casa.
em 2016 comecei um novo projeto com a intenção de voltar a escrever. algo que fazia muito na adolescência e quando jovem adulta e acabei interrompendo por tempo demais.
aqui na represa de nazaré paulista, nos escritos de outubro de 2016.
a proposição era fazer uma imagem do céu, e escrever algo, nem que fosse uma palavra. ao final de um ano tinha 365 textos e imagens de cada dia. ao longo desse processo fui percebendo que do momento em que eu fazia a primeira imagem até o final da escrita, o céu tinha se transformado completamente. esse fato me despertou para um olhar mais profundo. passei então a fotografar o céu entre 5h45 e 6h45 da manhã. observando as mudanças, os tempos, e me deleitando com esses encontros.
essas imagens foram também se tornando um calendário do céu, e estampas do cotidiano feitas a partir de duplicações das imagens em um aplicativo de celular. depois de um ano dessas coletas passei a coletar a cor do céu, também todos os dias durante um ano, em qualquer horário do dia. essas imagens se tornaram um livro de artista chamado de daily sky, composto pelo céu do ano de 2019.
daily sky, 2022.
as imagens também foram impressas em PVC e acrílico e se tornaram uma instalação na exposição 'atravessamentos poéticos', no museu casa de vidro, em campinas, em 2017,
exposição atravessamentos poéticos, casa de vidro, museu da cidade, 2019
e também uma coletânia de imagens chamada ‘ainda’, que foi um trabalho selecionado do SAC - salão de arte contemporânea de piracicaba, em 2017.
‘ainda’, sac - salão de arte de piracicaba, 2017
quando fui a amazônia pela primeira vez também tive uma outra visão do céu, ali, com um horizonte amplo onde o rio e o céu se encontram em uma extensão de 360 graus me trouxe um outro sentimento. talvez porque olhar o céu a partir de um horizonte circular e uma linha tênue que separa o céu e o rio me fez lembrar da força e da fragilidade das existências. na floresta sempre imagino os xapiris e os imagino flutuando no espaço como seres encantados que ativam outros seres. sigo os com os olhos até que desapareçam no céu como em um passe de mágica.
Nota sobre o entardecer de luanda
Sentada na cama a janela aberta para o mar, um pouco distante, mas perto o suficiente para ver uma faixa de cidade, o mar, o horizonte e o céu. O protagonista é o sol. Avermelhado sobre o fundo degrade em tons pastéis. Parecia inerte, mas muito vivo. Mudando suavemente de cor e descendo em direção ao horizonte. Fiquei ali.
O tempo me pareceu despreocupado da sua própria existência e o tamanho do sol, cada vez maior. Percebi que nenhuma imagem daria conta dessa experiência. Parei de tentar fotografar e me deixei deleitar até que ele sumiu antes de alcançar o horizonte, como uma mágica, de repente, só poderia ver o seu vestígio quem o estava acompanhando. Suas linhas tênues misturadas ao azul delicado do céu de Luanda.
fim de tarde em luanda, angola, 2023.
Antes que eu terminasse esse texto anoiteceu, as luzes da cidade desapareceram com o horizonte, tudo virou um céu e mar. E a lua já posta no céu estava ali, sobre minha cabeça sem que eu pudesse ver, tão hipnotizada estava pelo sol. Nuances de uma vida de tempos extendidos e silêncios.
rio arapiuns, amazônia, 2025.
ficar com o céu é um dispositivo de encantamento, de perceber os desenhos do universo, de sentir a terra como ser que flutua com muitos outros seres no espaço.
a ilha de marajó o céu espelhado na praia úmida é como se o céu e a terra se misturassem em um abraço, me dou conta da imensidão, mais uma vez, e do quanto de ar me sobra quando respiro essa paisagem.
praia de joanes, ilha de marajó, 2024.
os desafios da vida cotidiana são justamente nos abrirmos para essa possibilidade que é ter um corpo que acolhe a magnitude do céu e que pode assim se libertar com ele, em corpos que dançam, são sensíveis e que se abrem internamente para novos devires.
nascer do sol no rio arapiuns, 2023.