a vida e a arte sempre se encontram em gestos coletivos

A contemplação da vida é para mim um estado de ser, uma possibilidade de encontro através do qual pulsa em mim um estado de arte, que também posso chamar de estado de vida. Na medida em que os acontecimentos do cotidiano se sobrepõem no meu corpo, nos pensamentos, dos objetos, nas palavras, tudo se dá em um estado de relação. Um estado vivo, no qual o corpo doa e recebe o tempo todo um gesto de acomodação das ruinas e dos devires, dos afetos e dos encontros.

Ando pensando muito sobre o ateliê e a casa. A relação que se dá entre um e outro quando o ateliê é a própria casa ou uma extensão dela, ou mesmo quando a distinção desses dois lugares inaugura uma relação complementar, que se sobrepõe em alguns aspectos e completamente se separa em outros. O ateliê é casa, a casa nem sempre ateliê, as relações tecidas em um e em outro me parece ter intersecções, mas ao mesmo tempo me ajudam a pensar e experimentar uma forma de existir que resiste ao estado de casa, sublima, e se apoia em uma possibilidade de encontro entre eu e a casa, eu e o ateliê, o ateliê e a casa. Me lembro de uma imagem do Hundertwasser na qual ele apresenta as várias peles, as camadas que vão se somando, a partir do corpo, dentro do corpo, epiderme, derme, o corpo, a cidade, as árvores, a ecologia, as quais ele vai discorrendo como camadas de relação entre ele e o mundo: a pele, a vestimenta, a casa, a identidade social e o mundo. Nessa medida uma coisa nunca se separa da outra, mas coexistem, se complementam, de contaminam, experimentam a vida junto, em conjunto, em dimensões tão amplas quanto as possibilidades de existir de um ser, que se torna outro em cada encontro. A construção do ateliê como espaço de convívio, de reflexão, de encontro, de afetos é uma forma de abrir um campo de escuta de um corpo que se move no espaço, que busca em si mesmo um estado de si, e no outro um estado de outro, habitar com os seres que também habitam o local, visíveis e invisíveis, não porque precisamos aprender a conviver, mas porque não há vida sem o convívio pleno entre as coisas. Não há o que aprender, é preciso estar, viver, se colocar disponível á experiencia não para aprender e registrar formalmente o encontro, mas para que o corpo possa se modificar com o encontro, possa se estabelecer outros estados de ser, outras formas de se relacionar, baseadas não no que já é conhecido, mas naquilo que nem se pode imaginar. Fico imaginando o que pode ser viver a partir de algo inimaginável? O que pode ser estar, sem um estado de explicação sobre? O que pode ser um encontro que se dispõe a conviver, entrelaçar territórios, abraçar as diferenças não porque é preciso, mas porque não é possível não ser assim, tamanha a entrega. O convite é a entrega, é o corpo disponível, é  a presença tão profunda em um momento que se abre um estado desconhecido, cheio de devires, e o talvez o mais possível de nos apresentar um campo aberto a experimentar, a criar gestos, palavras, desenhos, músicas, que fluem como um fluxo porque se conecta com os fluxos do planeta e que são na sua maioria, desconhecidos por nós humanos, quando em estado de pensar, de um fazer automático, um estado que pensa mais que sente, que verbaliza mais que ouve, que acumula mais que flui.   

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A ausência como campo de experimentação

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estado de contemplação