
vida sensível
muna - museu universitário de arte uberlândia, mg, 2025
Empresto o nome da exposição, vida sensível, do primeiro livro que li de Emanuele Coccia, em meados de 2020. Atravessada por um corpo a beira da morte, em meio a pandemia me encontro com esse livro que traduz no momento essa aproximação com o sensível que eu vivia no corpo. De repente passei a pensar a importância do sensível, de um corpo vivo, aberto para todos os devires conhecidos e desconhecidos. Esse lugar para mim é um espaço entre, nem uma coisa, nem outra.
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Segui por meses com esse livro e depois de um tempo fui percebendo que o que me interessava de fato era trazer a experiência do sensível, porque corpos sensíveis não são facilmente colonizados, corpos livres que se permitem, e que podem assim ampliar sua visão de mundo e perceber outras nuances. Outros tempos que se dão na relação com outras formas de vida. Assim foi conhecer os fungos com o trabalho da Anna Tsing, pensar a comunicação entre os micélios e as raízes das árvores em redes invisíveis e potentes de existência. Fui adentrando as pesquisas de Anna Tsing, textos e o Feral Atlas, e percebendo a rede de conexões entre as coisas mais invisíveis para nós, seres das cidades. Esse vem sendo o pano de fundo das minhas pesquisas na vida. Na compreensão de como ser alguém que interfere menos na vida do planeta, de como viver em sociedade de forma mais afetiva e menos competitiva, de como entender quais ações são possíveis como eventos da própria vida que possam de alguma forma trazer o sensível para a minha vida e para as vidas ao meu redor. Em 2022 em uma viagem ao Canadá eu visitei o acervo e reserva técnica do Museu da natureza (Nature Museum) em Ottawa. Enviei uma carta para a pessoa responsável e perguntei se poderia conhecer a reserva técnica. Fiz duas visitas longas, uma ao acervo da biblioteca e outra as coleções de algas e plantas. Na biblioteca além do encontro com os livros raros e livros de artista, eu encontrei um grande livro ilustrado sobre fungos, e o fotografei. Comecei a coletar também imagens na internet, para além das fotografias de campo. Não me interessa estudar os fungos nas suas características e classificações, mas me aproximar da sua natureza afetiva e criar mundos inventados para esses seres em relação a outros seres do mundo, visíveis e invisíveis.
valéria scornaienchi verão, 2024
vida sensivel por suzana dias
Falar em fungos é sempre falar de relações. A vida fúngica desafia as separações modernas entre vivo e não vivo, entre animal e vegetal e entre organismo e meio. Suas vidas se fazem misturadas a outras vidas, eles são verdadeiros mestres das simbioses criativas. Muitas vezes, as tramas miceliais estão interligadas de tal maneira que não é possível separar um indivíduo de outros.
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Costuma ser difícil saber onde começa uma árvore e termina um fungo. Eles nos ensinam sobre possibilidades de coexistência, inclusive em ambientes perturbados pelas desastrosas atividades humanas capitalizadas. Encontramos esses seres profundamente e alegremente enredados a plantas, algas, minhocas, bactérias, pedras, solos, animais, gentes.... E tais relações resultam em consequências afirmativas para muitos, já que os fungos participam, por exemplo, do ciclo do carbono do solo, do crescimento das florestas e são fundamentais para manter a transformação da matéria na Terra. Ativar relações - existentes e porvir - é justamente o que busca Valéria Scornaienchi ao se dedicar ao encontro com os corpos fúngicos em Vida sensível. A convivência com os fungos – cogumelos, orelhas de pau, ferrugens, ninhos de passarinhos... - aconteceu nas matas, nos jardins, nas praças, nos livros, nas redes sociais e proliferou em desenhos, bordados, pinturas e escritas pelas mesas, paredes e telas do seu ateliê, e seguem acontecendo neste museu. Os fungos convidaram Valéria a intensificar sua aposta nas exposições como espaços abertos aos devires e a criação de mundos compartilhados. Ao invés de um projeto pronto, determinado e acabado de antemão, acessamos gestos e movimentos sujeitos à transformação e que se adaptam às circunstâncias, espaços, encontros e materialidades. A exposição é, também, uma decomposição do antropocentrismo. Um convite a sair dos sistemas centrados somente em artistas humanos e suas obras, para pensar em sistemas que dão atenção à criação e às colaborações que acontece em todas as partes, com qualquer um e todo mundo. Sistemas que criam relações abertas e móveis às colaborações multiespécies, em que todos – humanos e mais que humanos - são chamados a interagir, compartilhando suas sensibilidades e potencialidades. Desde os diferentes e encantadores fungos, às pessoas que foram convidadas a compartilhar seus diversos encontros com esses seres em uma Cartografia afetiva dos fungos, até os substratos e materiais heterogêneos que Valéria convoca e disponibiliza para as criações, papéis, madeiras, tecidos, tintas, linhas... Vida sensível se apresenta como um exercício delicado e contínuo de viver com os fungos e nos mostra como esse pode ser um requisito fundamental para viver diante dos tempos de precariedade e das alterações climáticas que ameaçam muitos modos de existir. Percorrendo o caminho da fabulação, a artista nos faz ver e escutar a vida pulsante do reino fungi, onde não há lugar para o automatismo, a linearidade, a homogeneização e o progresso. O resultado não é uma exposição sobre os fungos, mas sobre como tornar-se com os fungos e abrir possibilidades para que novas colaborações aconteçam, novas histórias possam ser contadas, novos mundos possam ser criados. E, como nos lembra a antropóloga Anna Tsing, que dedicou várias obras aos entrelaçamentos interespécies com os fungos, a sobrevivência envolve sempre a alteridade: “colaborações nos transformam, seja no interior de nossa espécie ou entre espécies distintas” (Tsing, 2022, p.75). TSING, Anna Lowenhaupt. O cogumelo no fim do mundo: sobre a possibilidade de vida nas ruínas do capitalismo. São Paulo: n-1 edições, 2022.
vida sensível por Susana Dias
corpo floresta
muna - museu universitário de arte uberlândia, mg, 2025
corpofloresta é um trabalho composto de 4 áudios, 4 imagens.
Corpofloresta conta sobre a experiência de estar na Amazônia. A artista esteve em 2023 durante um mês na região do baixo Amazonas, e fez uma coleta de imagens, escritas e desenhos as quais foram utilizadas para a criação desse trabalho. Trazer a companhia dos seres viventes da floresta como cocriadores é compreender que estar junto em convivência com esses seres não só inspira, mas traz as nuances do trabalho para um lugar do sensível, dos invisíveis e de percepções da floresta no corpo a partir de um ponto de vista que hora fala de humanos ora de mais que humanos. Um olhar que percebe as águas, plantas e seres invisíveis se entrelaçarem com o próprio corpo para assim contemplar, se demorar e a partir desse estado criar os vídeos. Os áudios presentes na exposição, são áudios dos vídeos.
Os vídeos e áudios foram feitos em cocriação com os seres viventes da floresta, das águas e com todas as pessoas com quem estive durante o período no baixo amazonas. Com o corpo aquoso e a flor da pele pois é assim que me sinto na floresta.
corpofloresta
registros da exposição
A natureza do livro de artista
Kamara kó galeria Belém, pa2024
cosmo políticas vegetais
espaço marco do valle, campinas, sp, 2024
Agora eu ouço os sabiás
igatu, Chapada Diamantina, Ba, 2024
Agora eu ouço os sabiás
Galeria da FAV, UFG, Goiânia, GO, 2023
projeto hg
estante de livros e cadernos de artista IA, unicamp, 2022
remetimentos
remetimentos, centro cultural miguel dutra, piracicaba, sp, 2020
marp
17ª edição do programa de exposições do marp, ribeirão preto, sp, 2019
fotos mauricio froldi
pelo avesso
são paulo, centro cultural histórico /universidade presbiteriana mackenzie, 2019
“A exposição começa na minha cabeça bem antes da montagem. Quando é possível, eu gosto de visitar o espaço, fotografar, observar o pé direito, o chão, as portas, janelas, toda e qualquer característica do espaço me interessa. Nesse caso a sala expositiva é intimista, tem um chão de madeira acolhedor, tem janelas que dão para árvores e para o prédio da Maria Antônia (USP), um elevador que tem a porta dentro da sala expositiva, e uma estrutura de vidro por onde o elevador se desloca. A porta é alta e de madeira. A sala tem o formato de um U. Entrei na sala, observei todos os desenhos do próprio espaço. De volta ao meu ateliê e aos objetos que iriam habitar aquele espaço eu começo a pensar em dimensões, distâncias, deslocamentos do espectador, tudo isso antes de selecionar os elementos poéticos do processo que seriam utlizados na exposição. ”
fotos de vane barini
museu = lugar de experimentação.
“No projeto original havia o ateliê-maquete. Que eu prontamente entendi que não caberia ali no meu pensamento de usar todo o espaço como ateliê. Eu teria uma caixa dentro da outra e pouca mobilidade. E eu preciso de fluxo no meu trabalho. Esses deslocamentos são importantes pra mim. Decidi então utilizar todas as partes que compunham o ateliê-maquete como estruturas para habitar o espaço. Lembrando que esse prédio é tombado e portanto impossível colocar coisas pregadas diretamente na parede. Ao longo da montagem fui percebendo o lugar e criando relações entre as imagens. As imagens que retratam o processo dos verbos em uma das paredes do ateliê-maquete agora estão na frente da própria estrutura (placa com os verbos escritos). Assim enquanto eu olho os verbos todo processo está logo atrás de mim e vice-versa. O que acaba dialogando com a maneira como o trabalho foi construído. Os verbos foram deixados, pelos visitantes, escritos numa folha na mesa do ateliê durante um período da exposição, e depois eu os reescrevi na parede externa do ateliê. Nesse outro momento como ele virou o trabalho ele é uma das paredes internas do próprio ateliê, não mais externas. Na outra parede que está entre os verbos e as imagens, há registros, pensamentos e processo. Esse é um lugar das perguntas e questionamentos sobre arte, o processo, o trabalho, e todas as derivações por onde sou levada quando reflito sobre o que é o trabalho de arte.”
catálogo da exposição
catálogo-livro-de-artista da exposição pelo avesso / por Fabiana Pacola Ius, MIX estúdio criativo, que também cuidou da identidade visual da exposição e da criação do logo 'pelo avesso'.
pelo avesso campinas,
macc, museu de arte contemporânea, 2018
O processo criativo e o trabalho no diálogo com o outro
Ver de perto
Ver de longe
Aproximar-se
Distanciar-se
Deslocamento
Dimensão
O corpo
A narrativa
“A realidade não é mais exatamente a mesma: ela é duplicada, reforçada pela ficção.”
leia texto de sylvia furegatti, sobre este trabalho
atravessamentos poéticos
campinas, museu da cidade, 2017
memórias improváveis
Campinas, SUBSOLO – laboratório de arte, 2018.
"Olhei as árvores como quem interroga testemunhas mudas."1
Sentada na beira do degrau observo o espaço. A árvore morta descansa. Ramos sem folhas nem raiz. Retângulo. Muro corroído pelo tempo. Chão coberto de grama recém cortada. Corredor entregue a solidão do vazio. Entreguei-me aquele retrato e passei a me perguntar o que de mim havia ali. Não demorou até que eu fosse absorvida pelo espaço. Cores sombrias. Passado. Morte? Vida? Passei a separar os ramos e galhos das árvores. Lembrei-me que as árvores na minha família iam se multiplicando. De muda em muda, de uma casa a outra. Memória. Assim me pergunto - de onde vem a memória? Onde ela mora? Tudo permanece vivo. Reorganizo os galhos como quem arruma a própria casa. Aconchegando cada coisa em seu lugar. Olho de novo e percebo o quanto reorganizar os galhos e troncos me transformou. Seres mortos. Cavidade em transição. De vazia a cheia. De nada a tudo. O efêmero. A parede manchada e rachada. Tijolo aparente. O que há por trás daquilo que vemos? O escondido e o aparente. Acalento a parede com um cinza claro. Breve pausa em cor. Os galhos descansam na paisagem. Se eu plantar o passado será que nasce memória? Haverá algo mais que sombras? Bosque das memórias. Universo peculiar das coisas mortas. Há quem passe a vida a cultivar o passado. Será a memória um pensamento? Será uma sensação? Um movimento? Respostas improváveis.
Valéria Scornaienchi
1. DIDI-HUBERMAN, Georges. Cascas - São Paulo: Editora 34, 2017 (1a Edição); p.112.
nunca mais, 2017
Gaia, galeria do instituto de artes, Unicamp Campinas, SP.




















Múltiplos sem múltiplo, 2018 carimbo, campinas
narrativas deslocadas
Campinas, Torta – espaço independente de arte, 2018.







encontros com alice, Emei comecinho de vida 2017
sobre o lugar da arte
levar a exposição para lugares não destinados diretamente a arte é uma forma de possibilitar que mais pessoas entrem em contato com ela.




