Ausências

A ausência como campo de experimentação

Ficar com a morte, com a existência seguida da inexistência das coisas me faz pensar sobre tudo o tempo todo.  Sobre o quanto as coisas são e estão, e no momento seguinte não são e nem estão mais.
O quanto o instante é o único momento existente e nada pode fazê-lo perdurar porque qualquer tentativa se transforma em um novo instante.
Há uma distância muito grande entre a existência das florestas e a imagem que nós cultivamos do que é a floresta.
O quanto limitado é nosso pensamento especialmente das árvores, do mundo de seres que as habitam e dos viventes dos solos que vivem sob elas.

Pensar araucárias pode ser pensar povos originários, pensar cidades que ocuparam locais de florestas. Quantas araucárias desapareceram com o tempo, e a destruição, e como pensar os espaços a partir dessas ideias, talvez espaços cheios e vazios. O que desaparece e que parece que nunca existiu, e que as gerações futuras não vão ver e talvez nem tenham conhecimento de ter existido. Somos o povo dos apagamentos das vidas invisíveis e das visíveis. Não cultivar a história é também fazer do presente o único tempo, que não considera passado nem futuro. Embora eu não acredite em tempos diversos para passado, presente e futuro, para olhar a história e as existências humanas e não humanas, pensar tempos pode tornar isso possível.  

Me interessa pensar como tantas florestas e matas foram sendo destruídas dando espaço ao que a gente chama de cidades, e entende que as cidades são a evolução, e desenvolvimento de um país. Eu não acho que existe nada no mundo mais evoluído que uma floresta, que contém relações muito próprias e onde as relações acontecem a partir da forma onde todos possam viver. Os ciclos são vivos nas florestas, imaginar que as árvores sustentam os rios voadores que fazem chover e que permitem que a terra se mantenha viva, fértil e nutritiva. São mecanismos extremamente complexos e ao mesmo de uma simplicidade assustadora porque as árvores não precisam de nada além delas mesmas saudáveis, sendo nutridas pelo seu próprio ciclo e pelos solos. Sem nada destruir. Talvez muitas pessoas ainda não se tenham dado conta de que a existência delas é o que torna possível a existência humana. E que as destruir é também destruir a si próprio, a humanidade.

Isso me faz pensar que tirar as camadas pode ser uma forma de olhar para as coisas. Pensar o que resta quando a gente vai tirando as camadas e olhando para a intimidade, para os gestos mínimos, para a essência da vida.

Tenho feito esse exercício na minha própria vida. Se eu comparar minha vida de 10 anos atrás e hoje posso dizer que fui eliminando tanto as camadas de coisas que eu entendia serem essenciais que hoje me sobra tempo, que me parece ser o mais essencial de todos os desejos. Tempo para refletir, para o ócio, para simplesmente estar e ser. Essas escolhas me fizeram viver mais intensamente as relações com as pessoas por onde passo. Olhar nos olhos das pessoas se tornou algo imprescindível, e o tempo de escuta também. Olhando de outra forma para a vida me faz pensar na importância da morte, não como fim, mas como processo. Como vestígio, como memória, como rastro e como evento natural inerente da vida. 
Pensar cada instante, e observar como a efemeridade das coisas pode ser algo que nos abra para a reflexão.


Meus processos de vida e de arte são acompanhar as existências mínimas, olhando para as plantas, as folhas que caem no ateliê, e a vida que sempre existe nelas mesmo quando elas perdem a viscosidade, mudam de cor ou se desfazem tornando-se outros seres. Quantas vidas invisíveis desaparecem e reaparecem nesses processos? Agora eu vejo esses seres ínfimos, que habitam meu ateliê, sou capaz de observar os rastros e não desaparecer com eles por medo de que os bichinhos comam os móveis. Eu vejo a vida e a morte ali, em cada pozinho que encontro sob os fragmentos naturais mais especificamente as sementes e cascas. Vejo a vida latente ali, gestando, gesticulando invisivelmente ao nosso olhar, e que depois de um tempo nós dão a ver algo mágico, os rastros que surgem sobre pó depositado na superfície. Linhas desenhadas por seres não visíveis por nós. Só então percebemos a vida ali. Que sempre esteve ali, mas que talvez não tivéssemos dado tempo para ela se apresentar para nós. Eles caminham por toda parte basta um contemplar demorado que começamos a enxergá-los. Seres viventes, quase invisíveis. Que existem dentro e fora de nós. Quando mais o tempo passa mais eles surgem. Agora sinto no meu corpo, os que caminham, sei que estão ali, mas nem sempre posso vê-los. Isso faz da existência deles especial como a existência das estrelas que eu sei que estão o tempo todo brilhando, mas que só nos aparecem quando a escuridão toma o céu. 

Tenho pensado em como trazer essas existências quase imateriais para o campo da arte. Não sei se as palavras ou se os próprios gestos mínimos, venho experimentando criar mesas com fragmentos tão pequenos que é necessário, uma pinça para movê-los. São as poeirinhas, ou os fragmentos quase invisíveis que nos pode oferecer essa possibilidade de compreender ou nos sensibilizar por esse lugar das não coisas.  

Cada vez mais sinto que o melhor que podemos fazer pelo planeta é nada. Aquietar, não deslocar, não consumir, não colocar mais energia naquilo que já está repleto. Uma presença sutil, delicada no mundo que está farto. Que não consegue mais lidar com os excessos de pessoas, de gestos, de palavras, de imagens, de construções e destruições. Vivemos em um tempo de excessos, sobreposição de excessos, de camadas como diz Byung-Chul Han, que não estão nos servindo mais de nada, são um campo de tensão de não sermos capazes de dar conta nem do mínimo, porque me parece que o mínimo já é o próprio excesso. 

O que seria construir jardins invisíveis, com elementos quase invisíveis, os quais podem ser facilmente despercebidos por tamanha pequenez? O que seria pensar instalações de fragmentos mínimos, de vestígios de metamorfoses, até que se tornem nada.

Talvez me interesse pensar nesses gestos secretos. Nesse corpo que se move escondido, ou sem ser visto, que cria uma constelação invisível. Uma energia no ar. 

Penso se a palavra escrita bem pequena com um gesto mínimo não pode ser esse lugar de construção de um espaço ampliado de subjetividades afetivas. Uma palavra inventada sem significado é invisível para nós. É de um campo desconhecido, é da ordem do sensível e talvez traga a reflexão sobre aquilo que não existe pra nós como ser vivente, e existe na mente como ser ausente.  

Nos relacionar com o mundo como se estivéssemos a beira da morte. Quando nada do que parece que fizemos a vida toda faz sentido. Quando nada é urgente, nada é necessário, nada pode bastar senão a poesia e o afeto. Perante a iminência da morte só o que resta é a presença silenciosa e afetuosa da existência plena, o ser. 

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