As ruínas da memória

 

Não vinha aqui há bastante tempo. Não para ficar como foi hoje.

Um estranho silêncio.

Silêncio da ausência dos que já foram.

Caminhei até as ruínas da casa.

Eu costumava ficar nas ruínas e me demorar ali. A vegetação selvagem adentrava a casa abandonada e fazia dela um ser encantado. Era meio planta meio paredes sem teto. As paredes rosa desgastado, o piso, as divisórias da casa que carregavam as histórias.

A casa pegou fogo. Não se sabe se foi uma vela que caiu ou alguém. Eles moravam na casa.

Ela carregou o piano para fora da casa sozinha. E as crianças.

Ela costumava tocar piano mas de uns anos pra cá não tocou mais. Eu me lembro da destreza das suas mãos tocando as teclas do piano e o som que me invadia a alma. Eu adoro som de piano. Ouvi dizer que, meu pai tocava piano de ouvido. Eu nunca vi e nem ouvi, não me lembro de ter piano na casa de ninguém da minha família.

A primeira coisa que eu faço quando chego aqui é ir lá. Andar nas ruínas da casa. Desta vez tudo parecia limpo demais. Eles cortam as plantas. Tiram tudo que podem. Eles cortam também meu coração e não sabem. Fecho os olhos e tento recobrar a memória das plantas que haviam ali. Eu costumava fotografar com as plantas, juntar me a elas, e perguntar-lhes os segredos daquela casa.

As árvores desacompanhadas pareciam tristes, ou talvez eu estivesse com o coração apertado ao ver o que era selvagem tornar-se ordenado.

Um dia ele me disse, está tudo limpo lá na casa. Dá pra você ir lá tranquila. Eu ouvi quieta com o coração acelerado e irritada. Ele não entendia. Queria dizer que agora não tinha bichos, insetos, animais, plantas... só as paredes desgastadas da casa em ruinas e as árvores grandes que não ousaram cortar.

Fiquei lá me lembrando de outros tempos. Quando ele estava vivo, eles não ousavam cortar nada. As plantas estavam salvas.

Mas agora está ficando cada vez mais cimentado.

As maritacas estão agitadas e eu me lembrando que o 'progresso' chegou aqui. A cidade chegou na fazenda de todos os lados. As áreas estão virando condomínios. Só Deus sabe o que isso faz dentro de mim.

Fico pensando nessa maldita ideia de progresso, desenvolvimento, crescimento, as palavras que pra mim batem com uma dureza enorme, que até me esqueço que podem ser palavras boas se pensarmos na biologia e na fisiologia humana.

O vento move a folha do coqueiro e traz o latido do cachorro. Entra por um lado da rede e se acomoda no lado direito do meu corpo. Continuo sentindo mesmo quando ele já passou. São os vestigios de sua passagem na minha pele.

Eu costumava caminhar pela fazenda andando atrás do vento. Ia vendo por onde ele tinha passado. Ouvia o vento, e o sentia. Ouvia o tempo e as palavras que ele soprava no meu ouvido.

Balançava o meu corpo e fazia o cabelo vivo.

Hoje ele só veio agora, na rede. Deitou-se comigo em nem percebeu que distraído parou a me fazer companhia.

Sempre gostei do vento. E hoje ele estava especialmente acolhedor, me senti protegida como nunca antes nesse lugar.

Há alguns anos atrás eu fiquei doente quando cortaram as árvores perto da casa. Doeu profundamente na minha alma e eu tive uma crise renal precisei fazer uma cirurgia de urgência. Eles não sabem que foi isso, mas eu sei.

Deixei a casa em ruínas lá. Mas a memória dela tomada pela vegetação está aqui.

 
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