Calendário dos afetos
Para falar de tempo há de se demorar. O tempo pensado pelo humano me aprisiona em um calendário que não me cabe. Não quero ter minha vida ditada por datas comemorativas cristãs e principalmente capitalistas, ditadas pelo consumo.
As regras da minha vida são outras, medidas pela régua do afeto, do tempo de convivência, e de outras tempos, o das plantas, o das nuvens ou mesmo do fluxo do rio.
Morando na cidade eu perdi o rio. Mantenho no imaginário o rio que corta a cidade por debaixo da terra. Tenho para mim que os rios nunca desaparecem eles se reorganizam e abrem outros espaços de fluir talvez em um lugar que não se possa ver. Se eu fechar os olhos, pisar no chão vou sentir o rio que passa em algum lugar.
O jardim do meu ateliê é a praça Carlos Gomes. Olhando aqui de cima vejo a partitura das palmeiras imperiais e a copa das árvores cobrindo quase toda a praça. É a manifestação da floresta em pé.
Eu vejo o tempo passar nas nuvens e nas alterações do céu através das janelas do ateliê. As tardes são melhores vistas das janelas da cozinha, do banheiro e da biblioteca. Encontro na confluência das janelas um tempo ditado pelo voo dos pássaros, pelo entardecer, pelo vento, pelo sol e pela chuva.
O tempo das nuvens pode ser lento, rápido, e há dias que parece parado de tão estendido e mínimo em gestos.
Já o tempo do rio corre no corpo como um fluxo. Se me atento ao corpo, com os olhos fechados, eu sinto debaixo da pele o fluxo, o corpo vivo, úmido, macio e doce. O ar que entra e sai do corpo também é rio, assim como os pensamentos. O corpo é cheio de fluxos rios. É um espaço aberto do sentir. É o lugar dos encontros ocultos. Ninguém é capaz de alcançar o que acontece dentro de outro corpo, e nunca é a mesma coisa. As palavras tentam explicar, descrever, mas o gestos não tem como serem descritos em plenitude porque não são planos como as palavras, são tridimensionais. As palavras flutuam em muitos campos mas a subjetividade é inexplicável.
Lidar com um mundo tão duro só é possível movendo o corpo. Bordando, desenhando, escrevendo, dançando, cantando, me relacionando com os lugares, plantas e pedras e tentando aprender com elas esse outro tempo, das metamorfoses, das transformações geológicas, das semeaduras enquanto tempo composto, que misturado ao tempo dos humanos pode ser uma chave de prolongar, do tempo de escuta e de sentir os aromas.
Volto aqui no tempo de demora, de um gesto mais lento, de escuta profunda que permita uma vida mais plena.
Seguir o fluxo dos sentidos não dos calendários. Criar seus próprios calendários com os seus afetos. As datas que te fazem sentido por encontros sensíveis e memórias cáafetivas. O tempo de florescimento de uma planta, ou o dia de um amanhecer especial, ou mesmo o dia em que se ouviu o canto dos sabiás pela primeira vez. O dia em que nasceu a primeira folha de uma planta que estava enraizando na água, ou mesmo que as raízes tomaram a superfície de vidro que as contém.
É sobre esse tempo que me interessa pensar listar, viver e compreender na sua forma mais afetiva. Na relação com os corpos, todos, humanos e não humanos e com todas as vidas sensíveis e invisíveis que as permeiam.