Entrelaçamentos da vida,

da arte e o pensamento conceitual do site

A arte e a vida se entrelaçam o tempo todo. Já não sei ao certo o que é uma é o que é outra. Me alimento do cotidiano e a partir dele vem os fazeres. Despretensiosos, afetivos e necessários para a minha existência no mundo. Se são arte não sei, ora sim ora não.

Não me interesso em nomear as coisas, nem classificar, muito menos criar qualquer tipo de separação entre elas. Imagino tudo com os rios, que na nascente brotam do solo e vão correndo em caminhos sinuosos e fluidos, ora largos ora estreitos e as vezes são interrompidos. Mesmo assim continuam existindo em fluxo, espírito e ancestralidade. Voltam a vista com mais força, com águas mais intensas vão se abrindo até que viram mar. Fico aqui imaginando o seu movimento, as histórias que carregam consigo, os tempos de vida, e todos os seres que vivem nele e se relacionam com ele.

Vejo os processos artísticos e de vida como esse rio que flui, se move o tempo todo, tem começo, meio e começo, como diz Nêgo Bispo, vira mar, águas infinitas. E as águas do planeta se comunicam e fluem por cima e por baixo da terra. As águas nos contam sobre se deixar tocar pelo gesto, pela temperatura, pelo fluxo. E é como as águas, que eu desenho, escrevo, observo o mundo, sempre na relação com outras coisas.

Imagino a vida como um grande ecossistema, onde tudo é interligado, coexiste, se relaciona, se renova o tempo todo. Assim quando olho meus fazeres no ateliê eu vejo tudo sem separação, compondo uma cosmovisão, um fazer floresta onde existe conexão, afeto, coletividade e fluxo. Vivo rodeada de seres mais que humanos e é com eles que me interessa estar. Com quem está no mundo há muito mais tempo que eu e sabe o que é estar no mundo sem destruí-lo. Eu me relaciono o tempo todo com plantas, pedras, sementes, nuvens, ventos, águas, céu e terras. É a partir dessas relações que toda cosmologia do trabalho e da vida se constroem. Fazeres que se sobrepõem em técnicas e linguagens, que se somam e onde tudo cabe. Um campo aberto de experimentar os materiais, o tempo, o corpo e o espaço. Todos os projetos que faço surgem a partir dessas relações. Me interessa refletir sobre como estar no mundo e apresentar outros pontos de vista. Sempre ampliando a forma de ver e de trazer o corpo para a experiencia.

Coletividades

De dois anos para cá tenho experimentado cocriações com outros seres não humanos e com humanos também. Já há algum tempo ando desconfiada da autoria de uma única pessoa a um trabalho já que estamos no mundo o tempo todo em relação. Tenho pensado de que forma podemos viver cada vez mais em relação, no plural, junto, no coletivo.

As coletividades são as experimentações a partir de criar junto, não coisas diferentes, mas a mesma coisa. Uma criação plural que leva em consideração as possibilidades individuais compreendendo o potencial de cada ser. São fazeres de autoria compartilhada, que contém gestos múltiplos e se sustentam na coletividade. As vezes são espaços de convivência, de experimentar o tempo juntes, conversas, escuta, contemplação... outras vezes são criações como exposições em galerias e bordados coletivos em espaços públicos.

Novas formas de estar juntos sem competir, sem excluir, recebendo o que cada um pode oferecer a partir da sua experiência de estar no mundo.

Me interesso em pensar o mundo como pluriculturas, relações não monogâmicas e não colonizadas. É um vislumbre que me faz fazer escolhas o tempo todo e ter cada vez mais consciência de tudo embora nem sempre consiga agir da forma como eu gostaria. Sou um ser em transformação e para isso me coloco disponível e vulnerável para me relacionar e experimentar. Me misturar com outros artistas para criar junto é uma forma de tentar compreender a natureza do ser coletivo, de pensar e estar junto, de propor coisas juntos e experimentar estar no mundo no plural.

Seiva

As residências artísticas e as incursões para investigar a paisagem e a natureza das existências, me possibilitaram me deslocar para lugares ermos, abundante em seres não humanos e que apresentam outras formas de estar no mundo. São nesses lugares que alimento a alma e me reconheço rio, montanha, floresta, pedra, plantas. Para criar florestas na cidade, reflorestar a vida urbana é preciso sair e voltar muitas vezes para me coletivizar com outros corpos, e fazê-los viver aqui também.

Serafina e nós

Os encontros para compartilhar processos, falar sobre florestas, as residências, criações e ‘desorientação’ de processos criativos, em um pensamento de expandir e olhar de forma mais ampla para o trabalho, são o que eu ofereço através do ateliê Serafina. Um espaço de convívio, criação e compartilhamento. Receber outros artistas, promover encontros e diálogos. O Serafina tem alguns projetos: diálogos e compartilhamentos (conversas sobre arte, processos e vida) e intersecções (artistas são convidados a ficar no ateliê durante um tempo, e cocriar comigo). Mas tudo é muito fluído e vai se construindo como o curso de um rio. Eu apenas abro espaço.

O ateliê é meu maior projeto. Conviver com o espaço, cultivar plantas, amigos, criar espaço de diálogos e construir com o lugar um campo de experimentação e afetos. Conviver com os seres não humanos que também habitam o espaço e aprender com eles formas de estar no mundo é um desafio que eu levo muito a sério. Talvez seja esse o desafia da minha existência.

 
 

sementes

sementes é o blog que contém textos, escritos, poemas, fragmentos de diários, as mais diversas formas de escritos que são exercícios diários. Escrevo todos os dias com uma fluidez e despretensão, e apresento aqui esses textos. As escritas também são rios, fluidas sem ficar e voltando no texto, é o que sai, sem me preocupar com erros, acertos ou qualquer outra coisa.

É o que eu sinto que quero compartilhar. Algumas vezes são coisas íntimas e afetivas, outras são sobre a vida e as relações, mas de maneira geral os escritos falam sobre formas e possibilidades de estar no mundo e se relacionar. Me interesso especialmente pelo luto, e pelos processos criativos.

Quero estar no mundo da maneira mais aberta possível e para isso penso a vida como experiência. Como lugar potencial de viver todas as possibilidades do que é estar no mundo.

Nesse site apresento meus fazeres, coletividades, proposições expositivas, seiva - residências e incursões na paisagem, o ateliê Serafina e transbrotamentos - escritos em forma de um blog.

Te convido a adentrar ao pluriverso, reconhecer a natureza que somos para assim podermos ser defensores e criadores de florestas urbanas e selvagens.

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