a vida sensível

 

Empresto esse nome do primeiro livro que li de Emanuele Coccia, em meados de 2020. Atravessada por um corpo a beira da morte, em meio a pandemia me encontro com esse livro que traduz no momento essa aproximação com o sensível que eu vivia no corpo. De repente passei a pensar a importância do sensível, de um corpo vivo, aberto para todos os devires conhecidos e desconhecidos. Esse lugar para mim é um espaço entre, nem uma coisa, nem outra. Segui por meses com esse livro e depois de um tempo fui percebendo que o que me interessava de fato era trazer a experiência do sensível, porque corpos sensíveis não são facilmente colonizados, corpos livres que se permitem, e que podem assim ampliar sua visão de mundo e perceber outras nuances. Outros tempos que se dão na relação com outras formas de vida.

Assim foi conhecer os fungos com o trabalho da Anna Tsing, pensar a comunicação entre os micélios e as raízes das árvores em redes invisíveis e potentes de existência. Fui adentrando as pesquisas de Anna Tsing, textos e o Feral Atlas, e percebendo a rede de conexões entre as coisas mais invisíveis para nós, seres das cidades.

Esse vem sendo o pano de fundo das minhas pesquisas na vida. Na compreensão de como ser alguém que interfere menos na vida do planeta, de como viver em sociedade de forma mais afetiva e menos competitiva, de como entender quais ações são possíveis como eventos da própria vida que possam de alguma forma trazer o sensível para a minha vida e para as vidas ao meu redor.

Nesse período passei a cultivar plantas no meu ateliê. Observar as raízes na água, o tempo das plantas, e das existências secretas. Mudar o ponto de vista para os seres mais que humanos. As plantas, os bichinhos que surgiam nas mesas do ateliê, as formigas da cozinha, e os seres que eu não via, mas sabia que estavam ali. Passei a ampliar a importância dessas vidas para então perceber outras formas de me relacionar com o mundo.

As residências artísticas, a Casero na Serra da Mantiqueira, no inicio de 2021, depois o Mirante Xique-Xique, na Chapada Diamantina, na Bahia, e pôr fim a São Jerônimo em Belém do Pará, me trouxeram vivencias em biomas distintos, a mata atlântica, o cerrado e a floresta amazônica, nas quais eu fui percebendo um corpo cada vez mais vivo na relação com as árvores, rios, florestas, terras e pedras. Fui compreendendo que um corpo na paisagem, na relação com os entes vivos mais que humanos é um corpo vivo, que sente, que amplia sua vida sensível e vai se tornando mais aberto e criativo porque se encontra com as forças das águas, terras, pedras e plantas, o que potencializa as suas percepções de vida. A natureza sempre está lá, é um campo de experimentações corporais infinitas, e cada um dos seus biomas e fenômenos tem muito a ensinar aos nossos corpos e a nossa forma de viver.

Aprendi com o céu sobre a imensidão e sobre a capacidade de me ampliar por dentro só o-contemplando. Enquanto se olha o céu, não é possível ver o fim, então os olhos transpassam a paisagem, as nuvens, o vazio. É um vazio tão imenso que amplia o corpo em uma sensação de existência. É possível perceber o tamanho da nossa insignificância quando se contempla o céu, e ao mesmo tempo fortalece a alma, a sensação de que somos o próprio céu na sua imensidão. É um paradoxo.

Essas experiencias de vida vem construindo meu trabalho artístico que eu não percebo como algo separado da minha própria vida. Os fazeres artísticos acontecem naturalmente no meu cotidiano como uma forma de lidar com o peso do mundo, com a minha própria incapacidade de fazer algo. Lidar com as minhas dores e insatisfações criando outros mundos os quais eu posso me debruçar e pensar em poesias, tempos outros, relações mais plurais, múltiplas, coletivas e abertas. É uma necessidade que suporta a minha própria existência, que me faz sentir o mais inútil possível ao sistema que me consome todos os dias. Uma tentativa de burlar o sistema e resistir existindo na escrita, no desenho, nos gestos sensíveis de conexão com seres mais que humanos e humanos que se transportam depois para conversas, encontros poéticos para falar de vida, sendo a vida a própria arte que nos sustenta.

A vida sensível é um projeto que eu venho trabalhando desde 2019, coletando imagens de fungos por onde eu passo. Nas florestas da Finlândia até a floresta Amazônica. Uma cartografia de vidas quase invisíveis. Me percebo caminhando nas trilhas em buscas das mínimas delicadezas enquanto meu corpo emerge na energia profunda das árvores, plantas e terras.

Em 2022 em uma viagem ao Canadá eu visitei o acervo e reserva técnica do Museu da Natureza (Nature Museum) em Ottawa. Enviei uma carta para a pessoa responsável e perguntei se poderia conhecer a reserva técnica. Fiz duas visitas longas, uma ao acervo da biblioteca e outra as coleções de algas e plantas.

Na biblioteca além do encontro com os livros raros e livros de artista, eu encontrei um grande livro ilustrado sobre fungos, e o fotografei. Comecei a coletar também imagens na internet, para além das fotografias de campo.

Não me interessa estudar os fungos nas suas características e classificações, mas me aproximar da sua natureza afetiva. Assim passei a criar pequenos biomas em alguns aplicativos de celular nos quais eu retirava o fundo das imagens e criava sobreposições combinando desenhos meus, imagens dos livros e fotografias de paisagens. Essas colagens digitais foram impressas em fotografias pequenas, quadradas e utilizadas para os desenhos dos trabalhos maiores, e ampliadas em tecidos transparentes.

O projeto ‘a vida sensível’ traz esses elementos para ocuparem o MuNa. São desenhos em formatos grandes 100x70 cm, fotografias pequenas, impressões em tecido transparente, objetos, pequenos textos e escritos sobre as reflexões e os processos.

As construções coletivas dos projetos expositivos me interessam. Em 2023, na galeria da FAV em Goiânia, eu fiz uma proposição de uma exposição com a galeria aberta durante toda a montagem. Me interessa compartilhar processos, dialogar enquanto o trabalho está sendo pensado no espaço e contar com a participação de pessoas para esse processo. Uma média de 70 pessoas passaram pela galeria durante o período de montagem. Acredito que essa é uma forma de aproximar as pessoas da arte, de incluir, de criar espaços mais afetivos e efetivos de diálogo.

Propor esse tipo de trabalho para um museu universitário é também pensar nas questões educativas não separadas da própria criação da exposição enquanto ser vivo que habita um novo espaço. Incluir as pessoas nos diálogos de montagem e experimentações com os materiais que eu mesma utilizo no ateliê. Os pigmentos vivos de tinta mineral e vegetal, as projeções para desenhar, o tempo estendido de processo e as histórias que constroem as narrativas do trabalho.

É um convite a pensar o museu como um lugar de experimentação, de proposição aberta e viva. Lugar de encontros e reverberações.

Me interessa romper com as camadas de distanciamento entre o público e a arte, promover espaços de sensibilizar os corpos e ampliar a percepção de que a arte e a vida não se separam. E questionar a autoria.

Compreender corpos vivos é compreender corpos que vivem em pulsação com a terra, com gaia, com a energia de vida, de existência e não só de processos civilizatórios. Acredito na potência dos processos artísticos que se fundem com a própria existência de outros seres, das possibilidades de encontrar outras visões de mundo. O mundo o qual está dado para nós, não está dando certo, e não precisamos ir muito longe para perceber o quanto de destruição estamos fazendo na terra, a ponto de colocarmos em risco as nossas próprias vidas. A ignorância e insistência nesse sistema capitalista nos faz cegos de uma vida pulsante que precisa ser percebida pelo maior número de seres possíveis, para que haja mais liberdade de ação no mundo a partir de outros lugares e não da repetição de formas já existentes, conhecidas e que não podem mais nos trazer o frescor e as brisas de novos ares.

Um amigo essa semana me disse só preciso de luz e vento. Eu achei lindo isso. Talvez seja isso, eliminar as camadas de coisas que entendemos que são necessárias para as que realmente são.

O tempo e as experimentações na relação com as plantas, rios e pedras me fizeram acordar para o que realmente me parece importante. Aprender com os seres mais que humanos, criar espaços de compartilhamentos, ampliar as percepções do que é sensível, e pensar formas de vida mais afetivas, delicadas e que não destruam ainda mais o planeta.

Criar espaços de florestas para uma contemplação do mundo na sua forma mais selvagem, sem as camadas impostas pela educação que tolhe a expressão e a capacidade de alguns seres de existirem no mundo. As floretas são múltiplas, as árvores ajudam umas às outras por meio das suas raízes, fazem sombra para que outras espécies sobrevivam, geram sementes para que a própria espécie se multiplique. Serve de casa para milhares de seres visíveis e invisíveis. Talvez olhar para as árvores seja um bom lugar para começar a pensar sobre as relações humanas. A própria vida como espaço para pensar a educação seja no seu cotidiano seja na montagem de uma exposição de arte.

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