experiência arte e vida

 

A vida e a arte como campo de experimentação

Os deslocamentos do meu cotidiano determinam e são determinados pelo meu trabalho. Sejam caminhadas por percursos repetidos os quais eu acompanho as plantas e paisagens, seja por lugares escolhidos os quais eu me interesso em simplesmente estar, sem gestos criativos pensados, mas como uma experiência de estar em um lugar e me conectar com ele através dos sentidos. Todos esses lugares geram coletas, coletas de pequenos fragmentos da natureza, de sentimentos, de sensações que de volta no ateliê me ajudam a expressar desenhos, escritos e gestos poéticos em relação aos entes viventes da natureza. Gosto de pensar as pedras como uma alma antiga, de uma energia de sabedoria e embora pareçam estáticas carregam milhões de fragmentos mínimos que a fazem vivas. Areias que decantaram, se agruparam e criam um gesto de ser pedra. Gosto de pensar as conchas como seres sublimes, que descansam nas areias das praias, que foram casas e que criam um caminho vivo junto ao mar, que dança atravessando suas superfícies, enriquecendo o ecossistema. Já as plantas, folhagens e flores me recordam a impermanência das coisas, o tempo de passagem, de vida e de morte de todos os seres viventes.

Meus desenhos e trabalhos são norteados por um pensamento de coexistência de todos os seres. Uma comunhão de seres. Imagino um mundo não fragmentado onde todas as coisas cabem no mesmo espaço e compõe ecossistemas. as instalações são como uma floresta ou um grande banco de corais, ou mesmo uma junção desses dois sistemas que se auto nutrem e nutrem uns aos outros. Pensar em séries separadas para os trabalhos me ajuda a organizar a produção, mas entendo que todas podem se atravessar em qualquer momento. Como um rio que atravessa desertos, florestas, cerrados, e outros lugares com características adversas.

Imagino um mundo onde nada é separado, e assim todas as nuances desse lugar cabem em um grande jardim, seja de espécies desagrupadas, seja de conjuntos de desenhos, textos e objetos.

As mesas são pequenas ilhas, ecossistemas formados por esses conjuntos migratórios de coletas e experiências. As paredes funcionam como grandes painéis no qual as plantas se unem aos desenhos e a desenhos feitos na própria parede como entes que agregam os objetos e elementos que forma esses sistemas não lineares de pensamento/imagem.

A ordenação das coletas cria um atlas poético de botânica, de minerais e as vezes animais. Ordenar esses fragmentos me lembra que o todo é sempre formado por partes e as partes sempre compõe um todo. Não há uma classificação das pranchas por tipo, forma ou cor, elas podem ser agrupadas das mais diversas formas, ou todas juntas compor algo. As coletam ativam minhas memórias e por me relacionar com elas eu escrevo. Memorias de infância, memorias de vida, memorias de algo nunca vivido, mas sentido. O Herbário de histórias é uma plataforma virtual que carrega as memórias e as pranchas de coletas. São para mim o registro das caminhadas e as possibilidades de manter vivas as memórias não só do meu ser, mas de todos os seres que descansam nas imagens, que para mim são como pequenos poemas em imagens. É um organismo vivo que irá se modificando ao longo do tempo.

Os pigmentos de terra utilizados na série há jardins entre a terra e o mar, ou poderia chamar há jardins entre o céu e o mar, entre a terra e o céu, porque há jardins em todo lugar. Eu vejo jardins perfeitos, organizados de forma ordenada ou selvagem na terra, no mar e no céu. Criar essas conexões com pigmentos de terra é como lembrar que somos conectados, todos os seres. A terra, não só o planeta, mas a terra que é de onde viemos e para onde vamos, depois desse pequeno intervalo de tempo que é a vida.

Guardar os fragmentos em caixas e vidros, é como se eu pudesse a qualquer momento retirar tudo isso e fazer reviver o tempo e os jardins de onde outrora vieram essas plantas, e seres agora dormentes. 

O Serafina é meu ateliê em Campinas, interior de São Paulo. Eu cuido desse espaço e o transformo em um oásis, um lugar de encontros, de delicadezas e respiro no centro da cidade. Entendo o ateliê como meu maior projeto, onde construo florestas e abro espaço para um ativismo delicado, de conversas e afetos, o que para mim é uma forma de resistir as brutalidades e violências do mundo.

 
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