sobre jardins e memórias

Acordei pensando sobre as plantas do ateliê. Devo confessar que nunca fui a pessoa de dedo verde.

Acompanho os jardins das casas da minha família desde pequena até porque as plantas sempre foram um assunto das mesas de almoço, falávamos de gentes, plantas, animais e politica na mesma proporção.

O jardim da minha casa era bem eclético, era jardim e era horta, tinha coqueiros e tinha hortênsias, outras flores miúdas e folhagens.No quintal uma árvore de mexerica murcote, uma muda vinda de uma árvore da casa da minha avó, em Itápolis. Tinha folhas de alface e cenouras. Eu tenho a imagem do meu pai agachado no jardim mexendo na terra. E de mim correndo no jardim que era pequeno, mas eu também era na época.

O jardim da casa da minha tia é o maior das minha lembranças, anos e anos convivendo com o jardim. Antes de mudar para essa casa de hoje, eram canteiros com muitos vasos e as árvores ficavam nas laterais da casa. Dessa primeira casa me lembro das rosas e dos gatos. Também me lembro do meu avô, a pessoa mais doce do mundo, caminhando ao redor das plantas. Os vasos dessa casa se mudaram com ela para a casa de hoje. E já se mudaram para outros lugares porque já não estão mais lá.

Antes da minha tia mudar ela plantou as árvores e plantas. A casa começou pelo jardim. As roseiras continuam lá.

Durante a pandemia com a aproximação das plantas, e o fato de ficar em casa, fui tomada por um gesto planta e passei a ficar com as poucas plantas de casa, conversando com elas, vivenciando outros tempos.

Na fazenda eu sempre vou para a casa em ruínas onde crescem as árvores e plantas, que com sorte, crescem de forma selvagem. Há alguns anos atrás, acho que uns 8 anos eu tive uma crise renal. Uma infecção muito grave nos rins. Foi por causa de uma árvore cortada. Me deu uma tristeza tão profunda misturada com medo, raiva, tomou meu corpo todo de um sentimento muito ruim. No dia seguinte me atacou o rim e fui internada.

Não consigo entender essas ideias de que as árvores sujam a calçada, que as raízes vão destruir o muro... as pessoas constroem as casas acabando com as árvores e plantas e se acham no direito de continuar as destruindo, para o seu bem estar. Uma árvore é morada de milhões de seres, é o ser capaz de nos manter vivos, e na lógica das cidades elas vão sendo removidas para passar mais carros, para que os fios de alta tensão não sejam abalados, para que as folhas e flores não caiam na calçada, pensa que coisa desmedida que foi naturalizada, quando qualquer árvore é podada de qualquer jeito ou cortada imediatamente surgem as desculpas de era necessário, e que todo mundo passou a repetir sem saber se era mesmo necessário. Só a natureza sabe o que é necessário pra ela mesma. O que fazemos são escolhas por interesse, os mais diversos interesses.

Me lembro da sensação das sombras das árvores. Na minha casa tinha uma primavera no jardim que descia para o muro da rua e fazia uma sombra perto do muro. Eu me sentava ali. Havia uma árvore bem na frente da casa onde ficava meu carro estacionado na calçada, bem debaixo da árvore. Naquela época fazíamos isso, estacionávamos os carros nas calçadas.


Seguindo com os jardins, eu preciso dizer o quanto os jardins do ateliê me alegram. Já disse algumas vezes que o ateliê é um projeto de vida, sou a guardiã desse espaço que virou um lugar de muito afeto. A floresta na cidade. Comecei de forma despretensiosa trazendo algumas plantinhas fáceis de cuidar porque as vezes fico muito tempo fora e não quero que elas morram. Fui percebendo que elas estavam durando, e que de alguma forma eu estava conseguindo encontrar nossos tempos. Fiz um jardim no banheiro, fui colocando os galhos nos vidros com água para enraizar, fui trazendo mudas de lugares de passagem e ganhando plantinhas de outras pessoas que chegavam.

O jardim do ateliê também tem uma horta e outras plantas como na minha casa, tem ora pronobis, boldo, hortelã, sálvia... tem manjericão e plantas ornamentais. Não sei muito bem os nomes das plantas nem tampouco suas características mas conheço as suas folhas, o seu contorno, o seus tempos. Conheço seus humores.

me aproximo não como quem quer compreender lhes as funções e formas reconhecidas pela botânica, mas como quem quer estar junto, construir com elas outras formas de estar no mundo, adicionando seus contornos aos meus, criando intimidade, assistindo os silêncios e percebendo de que forma existimos umas para as outras.

fico aqui conversando com elas, mudando as de lugar quando elas me dizem para fazê-lo, nunca pela minha vontade. aprendo como se relacionam. tem uma trepadeira que subiu pelo cano da lavanderia e de repente uma outra plantinha com folhas em forma de coração, que eu ganhei de uma amiga, começou a se deslocar e se enredou nos galhos da trepadeira. agora elas crescem juntas.

a ora pronobis era um vaso que, a vizinha, que mudou uns anos atrás, ia jogar fora, eram dois vasos. eu peguei, e comecei a cuidar delas. a ora pronobis não ia de jeito nenhum naquele vaso. um dia senti que era para podar, e enterrar os galhos em um outro vaso onde as plantas também não ficaram, foi a primeira horta de hortaliças que tentei fazer e que não deu certo. dentro de pouco tempo a ora pronobis cresceu de um tanto que ocupou todo o vaso e subiu pela parede e pela bancada, a coisa mais linda.

agora já tem outras dela no banheiro em um vaso de begônias que também não ficou bem aqui e morreu.

lidar com plantas é contemplar a vida e a morte pulsando o tempo todo.

quando fui a primeira residência, em Belém, observei como as plantinhas ficavam ali, em vasos na janela, entre a árvore do quintal e os cômodos da casa, elas eram um entre, dialogavam com dentro e fora. me lembrando que sempre existem esses dois mundos. enquanto entrava e saia da casa as plantas do jardim da frente davam flores muito pequenas, de uma delicadeza enorme. todas as vezes tinham muitas no chão carregadas pelos ventos. coletei um punhado delas e criei uma instalação no beiral da janela para ver se o vento iria compor comigo aquele espaço, e ele sempre vinha mudando tudo de lugar, e como eu nunca sabia como estavam antes eu fui tecendo um diálogo aberto com o vento através das pequenas flores, me demorei tempo o suficiente.

em 2024 voltei a Belém e frequentei dois novos jardins, em casas vizinhas. as plantas em pequenos vasos, árvores, e de repente me dei conta que havia uma ligação invisível entre os dois jardins, uma ligação de afeto. as plantas brotando de um lado e crescendo desmedidamente do outro. aguar as plantas era um lugar comum, era um tempo de convívio com elas e observar lhes os tempos e silêncios construía pequenas narrativas. as pequenas delicadezas estavam nos dois jardins embora muito diferentes. os corredores cheios de plantas cocriavam com as paredes instalações de sombras e vestígios. as casas também vivem a vida das plantas.

na volta de belém surge um novo assunto com uma amiga: o limoeiro que de repente, depois de muitos anos, passou a dar muitos limões, parece que acordou de um sono profundo. junto com ele veio o canto do sabiá, que durante nossas conversas surgia em um pano de fundo. passaram a dialogar com a gente, os limões e o sabiá.

me lembrei de novo que as plantas eram o assunto das mesas de almoço na casa das pessoas da minha família. e assim os jardins criam dentro de mim outros tempos, memórias sensíveis, histórias de quem convive com eles. sigo sendo os jardins por onde passo.

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